Bijam Yoga

Textos : Ashtanga Vinyasa

Respirar é Preciso!
03/10/2011

Jamile Ansolin


Há alguns milhares de anos atrás, os antigos yogues descobriram que praticar exercícios de forma ritualizada oferecia uma oportunidade de instrospecção e transcendência. Dessa descoberta e da necessidade inerente ao ser humano pela realização de si-mesmo surge o hatha yoga ou o yoga físico.

O yoga em si mesmo é um estado de ser, mais do que um conjunto de técnicas e práticas que se faz periodicamente.

Podemos usar várias palavras buscando definir yoga, mas na verdade, o yoga é algo que precisa ser experienciado, não basta ler, assistir palestras ou vídeos de práticas de ásanas (posturas físicas).

A mais básica definição de yoga diz que “a capacidade de manter a mente focada em uma única direção é yoga”. (Patanjali YS I.2). Das muitas maneiras que se pode buscar esse foco, destacamos aqui a mais dinâmica e exigente forma de hatha yoga, o Ashtanga Vinyasa.

Esse é o sistema transmitido ao mundo moderno por Sri K. Pattabhi Jois (1915-2009) de Mysore, sul da India. O fluxo dinâmico de posturas traça sua linhagem até o antigo sábio Vamana Rishi autor do antigo manuscrito Yoga Korunta. Combinando a respiração com os movimentos em vinyasa, ashtanga yoga purifica o corpo estimulando calor interno (agni). Juntamente com Tristana, o método ensinado por Pattabhi Jois concentra a mente ao focar em três objetos: respiração (ujjayi pranayama), postura (asana) e foco visual (dristhi). Esse processo produz um intenso calor e suor, purificando e desentoxicando os músculos e órgãos e aquietando a mente.

O corpo é a parte física que expressa a mente e o espírito e é através dele que o praticante de ashtanga busca perceber sua voz interior, descobrir seu próprio paraíso interior. Como num espelho, a prática vigorosa de asanas traz a tona a visão de nossos desejos mais profundos, nossos sonhos, nossas fraquezas e nossa força interior.

Através dessa prática forte e exigente, desenvolvemos resistência não apenas física, mas moral e espiritual. O corpo se torna mais sensível e percebemos claramente o efeito de hábitos nocivos, pensamentos negativos, emoções destrutivas. Através do corpo, da respiração consciente, entramos num estado sutil de meditação e nesse estado nos conectamos com nossa verdadeira essência, o próprio estado de yoga, onde nos tornamos a própria respiração, o ritmo da vida.
Cada postura desafiadora nos apresenta um desafio, um teste que purifica o corpo e treina a mente. E são nesses breves momentos, que como numa chispa fazemos contato com o eterno em nós, com esse estado de consciência que é onde tudo verdadeiramente ocorre.

O yoga nos ensina que o caminho para cruzar essa ponte entre o denso (corpo) e o sutil (espírito) é a respiração. Controlar a respiração e coordená-la com os movimentos como o ashtanga propõe é um desafio que requer prática, dedicação e constância. Coordenar transições difíceis entre as posturas com a respiração correta, calma e controlada treina e desafia nossa atenção e produz foco na ação. O controle da respiração tem uma enorme importância sobre as nossas emoções, nossa capacidade de manter a calma e o equilibrio. É através de longas inspirações e exalações que estimulamos o sistema nervoso parasimpático e sua habilidade em relaxar e serenar a atividade mental. A respiração ujjayi ensinada no ashtanga yoga estabiliza os batimentos cardíacos durante atividades intensas, fortalece o sistema cardiovascular, aciona o relaxamento e mantém a mente totalmente focada no presente. Como Pattabhi Jois dizia, a prática de Ashtanga é uma prática respiratória e as posturas são apenas “flexões”. Sem a atenção plena na respiração a prática se tornaria apenas outra forma qualquer de exercício. E isso é de fato a cereja do bolo nessa antiga tradição de hatha yoga, pois ao criar um padrão de respiração equânime e contínuo, as oscilações mentais diminuem e produzimos um padrão de quietude interna, silenciamos os ruídos internos, nos abstraímos do mundo exterior e ouvimos a voz do EU maior em nós.
Acostumado a viver no “piloto automático” o ser humano urbano e moderno pode encontrar nessa prática além de uma forma de manter o corpo forte e saudável, o maior tesouro que se pode buscar, que é uma serenidade interior, uma capacidade de concentração mais profunda, auto-confiança e auto-estima.

Diante de tantas atividades diárias, compromissos que nos consomem, trabalho, família, relacionamentos, é no silêncio da prática, ouvindo o sussurro da própria respiração que podemos vislumbrar a sombra e a luz, conhecer o que há por detrás dos nossos olhos quando eles se fecham.

Se é fácil? Não, nem um pouco! Exige ardor, fé, constância e coragem! Coragem para ir além dos condicionamentos limitantes da mente, coragem para se entregar a si mesmo e se conhecer profundamente!
Se vale a pena o esforço? Afinal é só o que há, você consigo mesmo!
 

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